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terça-feira, 3 de junho de 2014

Identidade de Gênero

Arthur, 13 anos
Foto: Rafa Borges

Há momentos em que a criança se recusa a ser associado com a identidade sexual (menino ou menina), que corresponde ao seu sexo anatômico. Esta recusa não é um crescimento transitório e persistente. São as chamadas crianças transgênero. O papel dos pais é fundamental para o bem-estar das crianças transgênero, pois, à medida que vão crescendo, crianças transgêneros experienciam rejeição e muitas vezes são intimidadas, o que promove uma estigmatização e isolamento social. A reportagem divulgada pelo iGay conta como é essa experiência familiar. (Jéssika Queiroz)


Por Iran Giusti

Arthur, transexual de 13 anos: “Acham que só quero chamar atenção”

Mesmo enfrentando preconceito e incompreensão fora de casa, o adolescente teve apoio total da família para assumir gênero oposto ao de nascimento
Artur (Centro) e a família: Mãe Juliana da Silva Fernandes, os irmãos gêmeos, Enzo e Júlio e o pai Fabricio Alves.
Foto: Rafa Borges 

"Mãe, tirei zero na prova de História porque escrevi o meu nome social e não o de registro. A professora disse que eu tinha rasurado". Em seu primeiro contato com a reportagem do iGay, o menino Arthur Fernandes Alves já chega contando o problema pelo qual passou na escola. A situação exemplifica o tipo de percalço enfrentado por um menino transexual de 13 anos de idade, que vive em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Apesar de incomodar, um problema como esse não abate Arthur. Com seus cabelos azuis e camisa preta de banda, ele é um adolescente como muitos outros, cheio de paixões e aspirações. Além dos HQs de mangás orientais, o jovem se diverte ouvindo bandas como Green Day e MyChemical Romance.
Cabeleireiro e tatuador são as profissões que Arthur pensa seguir quando for adulto. Cursando o oitavo ano do ensino fundamental, ele aprendeu inglês e japonês estudando por conta própria em casa.
Nascido menina, Arthur se percebeu diferente já aos quatro anos de idade. "Sempre gostei de andar com os meninos, o melhor presente que ganhei na minha vida foi uma pista de carrinhos", revela o adolescente, que teve a sorte de vir ao mundo num ambiente livre de preconceitos. A mãe, Juliana da Silva Fernandes, é uma bióloga de 36 anos. Psicólogo de formação, o pai, Fabrício Alves, tem 37 e trabalha como bancário.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O que são pessoas cis e cissexismo?



Vivemos em uma sociedade ciscêntrica, cisnormativa. Isso ocorre porque as pessoas cis detém o poder de decisão sobre as pessoas não-cis dentro de vários âmbitos: Médico, Político, Jurídico, Financeiro etc. Reportagem divulgada pelo site (http://ensaiosdegenero.wordpress.com) no dia 17 de setembro de 2012 (Rodrigo Andrade). 

Por Hailey Kaas
O que são pessoas cis e cissexismo?

Mas quem são as pessoas cis? Utilizei a seguinte definição a priori:
“Uma pessoa cis é uma pessoa na qual o sexo designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de sexo + gênero designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de gênero, estão ‘alinhados’ ou ‘deste mesmo lado’ – o prefixo cis em latim significa “deste lado” (e não do outro), uma pessoa cis pode ser tanto cissexual e cisgênera mas nem sempre, porém em geral ambos.”
Uma pessoa cis é aquela que politicamente mantém um status de privilégio em detrimentos das pessoas trans*, dentro da cisnorma. Ou seja, ela é politicamente vista como “alinhada” dentro de seu corpo e de seu gênero.
Foto: site Ensaios de Gênero
Quero evitar dicotomizar aqui sexo e gênero, pois muito embora essas categorias sejam divisíveis para problematização, a ideia que a ciência construiu sobre o sexo é pré-discursiva, ou seja, é como se fosse compulsoriamente uma verdade.
Voltando na definição cis. Eu já havia retificado minha afirmação prévia em outra postagem, na qual elimino a discussão etimológica sobre o prefixo cis, porque não é cabível em uma discussão que se quer puramente política. Não queremos criar uma dicotomia entre pessoas cis e pessoas trans* e sim evidenciar o caráter ilusório da naturalidade da categoria cis.
O alinhamento cis envolve um sentimento interno de congruência entre seu corpo (morfologia) e seu gênero, dentro de uma lógica onde o conjunto de performances é percebido como coerente. Em suma, é a pessoa que foi designada “homem” ou “mulher”, se sente bem com isso e é percebida e tratada socialmente (medicamente, juridicamente, politicamente) como tal.

terça-feira, 13 de maio de 2014

A letra de Caetano

Múltiplas identidades - foto: Luís Marques


Reconvexo é o título de composição feita por Caetano Veloso, famosa na voz de sua irmã, Maria Bethânia, escrita especialmente para ela interpretar. A música é um grito de construção identitária e percorre o mundo da Bahia, fazendo referências também à cultura internacional.

A palavra Reconvexo, segundo nossa interpretação, é um tipo de “posição” na qual nem é convexo, nem côncavo, mas sim uma mistura de ambos. A letra, então, suscita um conjunto de reflexões sobre a construção de gênero. Ao mesmo tempo que se pode ser “a chuva que lança areia do Saara”, também é possível ser uma “sereia que dança, a destemida Iara” ou ainda, “o cheiro dos livros desesperados”. Ou seja, o ser humano como tal é constituído de várias identidades que não são especificamente rígidas, mas sim, fluidas.

Um fato interessante na letra é a junção das palavras Gita e Gogóia. A primeira é título da composição de Raul Seixas em parceria com Paulo Coelho, que dá nome ao álbum de maior sucesso, de 1974, da carreira de Raul Seixas, e também desenha uma consciência sobre o eu-lírico da canção. Ela faz uma referência ao Bhagavad-Gitā, um dos textos sagrados do Hinduísmo. Já a segunda faz parte de música (Fruta Gogóia) gravada por Gal Costa no LP Fa-Tal, de 1971, pinçada do folclore baiano. As duas músicas também mostram construções de identidades. Ambas, incluindo a de Caetano, começam com um pronome e um verbo que os filósofos desde a antiguidade vêm (re)pensando sobre: eu sou.

Luís Marques
Confira a letra da canção:

Reconvexo
Caetano Veloso

Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte
Com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música a mais velha
Mais nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo

Vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=qXd04dhUJBM [Reconvexo – Maria Bethânia. Turnê Amor Festa e Devoção]
https://www.youtube.com/watch?v=AVciSGQ6e9I [Fruta Gogóia – Gal Costa. Turnê Hoje]

https://www.youtube.com/watch?v=84zGRJbtMDM [Gita – Maria Bethânia. Turnê Tempo Tempo Tempo Tempo]